O governo federal propôs, em junho de 2026, elevar a mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para até 32%, medida que ainda depende de aprovação do Conselho Nacional de Política Energética. Veja o anúncio oficial sobre a proposta de aumento para E32. Enquanto isso, milhões de motoristas continuam confiando na mesma conta mental para decidir entre etanol e gasolina no posto: a famosa regra dos 70%.

Contudo, essa regra tem um problema pouco discutido. Ela foi calibrada para uma realidade que já não existe mais, e a maioria dos motoristas nem percebe isso.

De onde vem a regra dos 70%

O carro flex chegou ao Brasil em 2003, trazendo pela primeira vez a liberdade de escolher entre etanol e gasolina no momento do abastecimento. Como o etanol rende, em média, cerca de 70% da eficiência energética da gasolina, criou-se uma conta simples: multiplique o preço da gasolina por 0,7, e compare o resultado com o preço do etanol.

Assim, se a gasolina custa R$ 7,20, o ponto de equilíbrio fica em torno de R$ 5,05. Nesse cenário, abastecer com etanol só compensa se o litro custar abaixo desse valor. Portanto, a regra dos 70% nasceu como um atalho mental útil, criado para uma gasolina que, em 2003, tinha uma composição bem diferente da atual.

Por que essa conta ficou desatualizada

Aqui está o ponto central deste artigo. Em agosto de 2025, a gasolina brasileira passou de E27 para E30, ou seja, de 27,5% para 30% de etanol na composição. Agora, com a proposta de ir para E32, a gasolina comercializada nos postos já não é mais aquela mesma referência usada para calibrar a regra original.

Consequentemente, especialistas do setor já apontam que a regra dos 70% deixou de representar um ponto fixo confiável. Veja uma análise detalhada sobre como calcular a escolha correta em 2026. Na prática, o percentual real de equilíbrio hoje varia conforme o veículo, o motor e até a região do país, algo bem mais complexo do que o número fixo que todo motorista flex aprendeu de cor.

O motorista médio nem chega a fazer essa conta

Talvez o dado mais revelador seja outro. Segundo especialistas do setor de combustíveis, boa parte dos consumidores nem aplica a regra dos 70%, eles simplesmente escolhem o combustível visualmente mais barato no momento do abastecimento, sem considerar rendimento ou autonomia.

Ou seja, existe uma camada dupla de simplificação mental acontecendo. Primeiro, a regra dos 70% já é, em si, um atalho aproximado. Segundo, muitos motoristas nem usam esse atalho, recorrendo a uma versão ainda mais simplificada: “o que está mais barato agora”.

Por que o cérebro se apega a regras antigas mesmo quando elas mudam

Esse comportamento não é exclusivo do posto de gasolina. Assim como discutimos no artigo sobre inflação percebida, o cérebro humano tende a confiar em referências antigas e conhecidas, mesmo quando a realidade por trás delas já mudou de forma significativa.

Dessa forma, uma regra aprendida há mais de vinte anos continua sendo repetida, geração após geração de motoristas flex, simplesmente porque é mais fácil manter um número memorizado do que refazer o cálculo toda vez que a composição do combustível muda.

Como calcular a escolha certa em 2026

Diante dessas mudanças, alguns hábitos ajudam a tomar uma decisão mais precisa no posto:

  • Reaplique a regra dos 70% com atenção ao seu carro específico. Veículos mais modernos podem ter rendimento diferente do padrão usado para calibrar a regra original.
  • Zere o tanque periodicamente e compare o consumo real com cada tipo de combustível, em vez de confiar apenas na conta teórica.
  • Use aplicativos de cálculo de combustível, que já consideram a composição atual da gasolina, em vez de depender só da memória.
  • Leve em conta seu estilo de direção. Condução urbana, com paradas frequentes, tende a reduzir ainda mais o rendimento do etanol, alterando o ponto de equilíbrio real.

O que isso significa na prática

A regra dos 70% não morreu completamente, mas também não deveria ser aplicada sem questionamento. Afinal, o Brasil já mudou de gasolina duas vezes desde que essa regra foi popularizada, e uma terceira mudança pode estar a caminho em breve.

Assim, da próxima vez que for abastecer, vale lembrar: a conta que funcionava perfeitamente há vinte anos pode estar te fazendo pagar mais do que deveria hoje, simplesmente porque o combustível já não é mais o mesmo.

Referências

  • Agência Brasil. Cobertura sobre a elevação da mistura de etanol na gasolina para E32 (julho de 2026).
  • Usebaratão Combustíveis. Análise sobre a defasagem da regra dos 70% diante da gasolina E30 e da futura E32.
  • Fecombustíveis e especialistas do setor sobre o comportamento de escolha do consumidor no posto de combustível.