A dúzia de ovos que hoje vem com dez unidades. O chocolate que já pesou 200 gramas e agora tem 80. O açúcar vendido em pacotes com menos de 1 quilo. Todos esses casos têm o mesmo nome: reduflação, a prática de reduzir a quantidade de um produto mantendo o preço igual, ou até aumentando.

Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, esse tipo de mudança já reduziu o poder de compra do consumidor brasileiro em 3,78%. Contudo, a pergunta mais interessante aqui não é só “quanto isso custa”, é “por que quase ninguém percebe isso acontecendo”.

Por que o preço é fácil de notar, e o tamanho não

O cérebro humano é muito mais eficiente em comparar números exatos do que em avaliar volume ou peso a partir da simples observação de uma embalagem. Assim, quando um preço sobe de R$ 5 para R$ 6, a mudança fica evidente, o número está ali, explícito, fácil de comparar com a memória do valor anterior.

Já a redução de 200 gramas para 180 gramas em uma embalagem quase idêntica visualmente exige um esforço cognitivo bem maior. Consequentemente, a reduflação explora exatamente essa assimetria perceptiva: preços aumentam a atenção do consumidor, enquanto reduções sutis de conteúdo passam despercebidas na correria do supermercado.

O que a lei brasileira já exige das empresas

Vale destacar que essa prática não é livre de regras. A Portaria 392/2021, do Ministério da Justiça, determina que qualquer redução de quantidade seja informada de forma visível na embalagem, por pelo menos seis meses após a mudança. Veja a orientação completa do Procon sobre como identificar e denunciar a reduflação.

Além disso, alguns estados, como São Paulo, possuem legislação própria exigindo que o aviso ocupe pelo menos 20% da embalagem, em local de fácil visualização. Ainda assim, mesmo com esse aviso obrigatório presente, muitos consumidores continuam sem perceber a mudança, o que reforça o quanto esse tipo de alteração é sutil do ponto de vista perceptivo.

Um exemplo que mostra a dimensão real do problema

Um estudo detalhado sobre o tema apontou o chocolate como uma das categorias mais afetadas. No primeiro semestre de 2023, produtos como bombons e barras de chocolate sofreram redução média de 18,5% em volume, ao mesmo tempo em que o preço por quilo subiu 10%.

Ou seja, o consumidor pagou mais por quilo e recebeu menos produto simultaneamente, uma combinação que, isoladamente, seria fácil de perceber, mas que fica diluída quando cada mudança acontece de forma separada e gradual ao longo do tempo.

Como a reduflação se conecta com a inflação que você já sente

Vale reconhecer que a reduflação é, na prática, uma extensão do mesmo problema que já discutimos no artigo sobre inflação percebida. Ali, o problema era sentir os preços subindo mais forte do que a média nacional sugeria.

Aqui, o mecanismo é ainda mais silencioso: a inflação acontece, mas sem nenhum número visível subindo na etiqueta de preço. Assim como já recomendamos no artigo sobre a altura dos olhos nas prateleiras, comparar o preço por unidade de medida continua sendo a ferramenta mais eficaz contra esse tipo de estratégia.

Como identificar a reduflação na prática

Alguns hábitos ajudam a driblar esse tipo de mudança silenciosa:

  • Compare sempre o preço por unidade de medida, não o preço total da embalagem. A maioria dos supermercados já exibe esse valor na etiqueta de prateleira.
  • Preste atenção ao peso líquido escrito na embalagem, não apenas ao tamanho visual do produto. Embalagens podem manter dimensões externas parecidas, mesmo com menos conteúdo real dentro.
  • Fotografe embalagens de produtos que você compra com frequência. Comparar fotos de meses diferentes ajuda a identificar mudanças que passariam despercebidas na memória.
  • Denuncie ao Procon quando notar mudança sem aviso claro. A fiscalização depende, em grande parte, da atenção e da reclamação dos próprios consumidores.

O que isso significa na prática

A reduflação funciona porque explora uma limitação real da percepção humana: somos muito mais sensíveis a números explícitos, como preços, do que a mudanças sutis de volume e peso. Isso não torna a prática automaticamente ilegal, mas reforça a importância da transparência exigida por lei.

Assim, prestar atenção ao preço por unidade de medida, e não apenas ao valor total pago, continua sendo a defesa mais eficaz contra esse tipo de mudança silenciosa no carrinho de compras.

Referências

  • Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Levantamento sobre a redução do poder de compra causada pela reduflação.
  • Procon-SC. Orientações sobre como identificar e denunciar a reduflação.
  • Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor). Orientações sobre comparação de preço por unidade de medida.
  • Portaria 392/2021, do Ministério da Justiça, sobre obrigatoriedade de aviso em casos de redução de quantidade de produtos.