No dia 23 de julho de 2026, a CNC divulgou que a Intenção de Consumo das Famílias atingiu o maior patamar desde março de 2015, crescendo pelo nono mês consecutivo. Curiosamente, esse otimismo cresce ao mesmo tempo em que o IPCA-15 acumula alta de 6,8% em 12 meses, e a taxa de juros segue elevada. Esse contraste tem explicação na psicologia, e chama-se ilusão monetária.

Basicamente, a ilusão monetária é a tendência humana de avaliar o próprio dinheiro pelo valor nominal, ignorando o efeito real da inflação sobre esse valor. Portanto, um aumento de salário pode gerar sensação de ganho, mesmo quando, na prática, o poder de compra permanece igual ou até diminui.

De onde vem esse conceito

O termo foi cunhado pelo economista Irving Fisher e posteriormente popularizado por John Maynard Keynes. Décadas depois, os pesquisadores Eldar Shafir, Peter Diamond e Amos Tversky trouxeram evidências empíricas robustas sobre o fenômeno, em um estudo de 1997 conduzido com frequentadores de shoppings centers em Nova Jersey.

Segundo os pesquisadores, as pessoas raciocinam simultaneamente em termos nominais e reais, mas dão peso desproporcional ao valor nominal, o número que aparece no contracheque, gerando avaliações distorcidas sobre a própria situação financeira.

O experimento que revela o tamanho do viés

Um dos achados mais reveladores desse estudo comparou dois cenários. No primeiro, o funcionário recebe um corte salarial de 5%, sem nenhuma inflação no período. No segundo, o funcionário recebe um aumento nominal de 5%, mas a inflação do período é de 10%.

Matematicamente, os dois cenários resultam exatamente na mesma perda real de poder de compra, 5% a menos. Contudo, a maioria das pessoas avalia o segundo cenário como mais justo e menos doloroso, simplesmente porque ele envolve um número nominal positivo no contracheque.

Por que isso explica o otimismo do consumidor agora

Aqui está a conexão direta com o momento atual da economia brasileira. Segundo a própria CNC, o avanço da confiança em julho foi puxado pelo aumento do poder de compra das famílias, especialmente ligado a reajustes salariais recentes. Veja a íntegra dos dados divulgados sobre a Intenção de Consumo das Famílias.

Assim, mesmo com a inflação pressionando o orçamento por trás das cenas, o número nominal maior no contracheque gera uma sensação imediata de progresso financeiro. Consequentemente, a confiança sobe, mesmo quando o ganho real de poder de compra é bem mais modesto do que a sensação sugere.

A diferença entre ilusão monetária e inflação percebida

Vale esclarecer a diferença entre esse conceito e outro que já discutimos no artigo sobre inflação percebida. Naquele caso, o problema é sentir os preços subindo mais forte do que a média nacional sugere, especialmente em compras frequentes.

Aqui, o mecanismo é praticamente o oposto: a ilusão monetária faz você subestimar o efeito da inflação sobre seus próprios ganhos, criando uma sensação de melhora financeira que nem sempre corresponde à realidade do seu poder de compra.

Por que esse viés também trava o mercado

Vale destacar outro efeito interessante da ilusão monetária: ela ajuda a explicar por que preços e salários nominais tendem a ser lentos para se ajustar, mesmo quando a inflação já corroeu o valor real deles há tempos. Esse fenômeno é chamado de viscosidade de preços, e afeta desde negociações salariais até reajustes de contratos comerciais.

Assim, tanto trabalhadores quanto empresas tendem a resistir a cortes nominais, mesmo quando aceitariam, sem perceber, uma redução real equivalente disfarçada de estabilidade.

Como driblar a ilusão monetária nas suas próprias contas

Alguns hábitos ajudam a enxergar através desse viés:

  • Sempre converta aumentos salariais para valor real, descontando a inflação do período, antes de comemorar qualquer reajuste nominal.
  • Compare seu poder de compra ao longo do tempo, não apenas o número absoluto do salário. Uma cesta básica hoje revela mais sobre sua situação real do que o valor bruto do contracheque.
  • Desconfie de sensações de “estar indo bem” baseadas só em números nominais. Consulte o IPCA acumulado do período antes de tirar conclusões sobre ganho real.
  • Em negociações salariais, peça reajustes vinculados à inflação, não apenas percentuais fixos que parecem generosos no papel, mas podem não preservar seu poder de compra.

O que isso significa na prática

A ilusão monetária explica um paradoxo real da economia brasileira neste momento: otimismo crescente do consumidor convivendo com inflação e juros elevados. Esse descompasso não é irracionalidade pura, é um viés psicológico bem documentado, que qualquer pessoa está sujeita a sentir.

Assim, entender esse mecanismo ajuda a separar a sensação de progresso financeiro da realidade numérica por trás dela, o que tende a gerar decisões mais informadas sobre gastos, negociações salariais e planejamento de longo prazo.

Referências

  • Shafir, E.; Diamond, P.; Tversky, A. (1997). Money Illusion. Quarterly Journal of Economics.
  • CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias, divulgada em 23 de julho de 2026.
  • Wikipédia. Verbete sobre ilusão monetária, com histórico do conceito de Irving Fisher e John Maynard Keynes.

Nota editorial: dados de confiança do consumidor e inflação são atualizados mensalmente.