Neste domingo, dia 19 de julho, Argentina e Espanha decidem a Copa do Mundo de 2026 no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Mesmo sem o Brasil na disputa, o evento continua sendo capaz de mudar o comportamento de milhões de pessoas dentro do próprio horário de trabalho. Esse fenômeno tem nome na psicologia organizacional: presenteísmo, e ele explica muito sobre como lidamos com grandes eventos globais.
Basicamente, presenteísmo é a situação em que a pessoa está fisicamente presente no trabalho, mas mentalmente ausente, distraída ou desengajada. Portanto, diferente do absenteísmo, que é a falta física, o presenteísmo é mais sutil, e também mais difícil de medir.
Os números por trás do impacto global
Segundo pesquisa da UKG, empresa de tecnologia para gestão de pessoas, a Copa do Mundo de 2026 pode custar às empresas cerca de US$ 17 bilhões em perda de produtividade ao redor do mundo. Veja a cobertura completa do estudo da UKG sobre o impacto da Copa nas empresas. Somente nos Estados Unidos, sede da final, a estimativa de perda chega a US$ 11,7 bilhões.
De acordo com o levantamento, 37% dos trabalhadores planejam ajustar a própria rotina para acompanhar os jogos. Além disso, 27% admitem que vão chegar atrasados, sair mais cedo ou faltar completamente em dias de partida importante. Um dado ainda mais revelador, porém, é o dos 14% que confessaram assistir às partidas secretamente durante o próprio expediente, o exemplo mais direto de presenteísmo em ação.
Por que o presenteísmo acontece mesmo sem o Brasil na final
Aqui está um ponto interessante para quem já leu o artigo sobre consumo sem o Brasil. Assim como o consumo migrou de padrão em vez de simplesmente desaparecer após a eliminação brasileira, o mesmo acontece com o engajamento de tempo no trabalho.
Isso acontece porque grande parte do impulso de acompanhar a Copa não depende exclusivamente da torcida por um time específico. Segundo a mesma pesquisa da UKG, 73,3% dos profissionais afirmam que assistir aos jogos junto com colegas melhora o ambiente de trabalho, independentemente de qual seleção está em campo. Ou seja, o gatilho principal é o senso de pertencimento coletivo, não apenas o resultado esportivo.

O lado dos gestores também sente o efeito
Vale destacar que o presenteísmo não afeta só o time operacional. Segundo o levantamento, 42% dos próprios gestores planejam tirar folga em algum momento do torneio, e 45% consideram solicitar mudanças de horário de última hora. Consequentemente, a discussão sobre flexibilidade deixa de ser apenas uma demanda de equipe e passa a envolver toda a hierarquia da empresa.
Curiosamente, 11% dos entrevistados já admitiram, antecipadamente, que trabalhariam de ressaca após comemorações, o que reforça que o impacto no engajamento não se limita ao horário exato da partida, mas se estende também ao dia seguinte.
O que as empresas ganham ao reconhecer o presenteísmo
Do ponto de vista da gestão, ignorar esse fenômeno tende a sair mais caro do que endereçá-lo diretamente. Segundo a pesquisa Infojobs/Redarbor, 70,4% dos profissionais consideram as empresas mais atrativas quando elas adaptam a rotina durante momentos de grande mobilização nacional, como já discutimos também no artigo sobre consumo em grandes eventos. Desses, mais da metade classifica esse tipo de empresa como “muito mais atrativa”.
Assim, transformar o presenteísmo velado em flexibilidade combinada, como liberar o expediente mais cedo no dia da final, tende a gerar ganho de imagem, sem o custo escondido da distração não gerenciada.
Como lidar com o engajamento de tempo nesse fim de Copa
Alguns hábitos ajudam tanto profissionais quanto gestores a atravessar a reta final do torneio com mais equilíbrio:
- Negocie a flexibilidade com antecedência, em vez de recorrer ao presenteísmo velado. Combinar um horário alternativo costuma gerar menos atrito do que esconder a distração durante o expediente.
- Se for gestor, considere que a folga também vale para você. Os dados mostram que gestores sentem o mesmo impulso que a equipe, então ignorar isso raramente funciona na prática.
- Aproveite o efeito de pertencimento a favor do time. Assistir a um jogo decisivo em grupo, mesmo sem torcida nacional envolvida, pode fortalecer a relação entre colegas.
- Planeje o dia seguinte à final com realismo. Como o próprio levantamento mostra, o impacto no engajamento não termina no apito final da partida.
O que isso significa na prática
O presenteísmo durante grandes eventos como a Copa do Mundo revela algo importante sobre o comportamento humano no trabalho: presença física nunca garantiu engajamento real. Ao mesmo tempo, o fenômeno mostra como eventos coletivos continuam mobilizando as pessoas, mesmo quando o interesse nacional direto já não está mais em jogo.
Assim, entender esse mecanismo ajuda tanto profissionais quanto empresas a lidar com a reta final da Copa de forma mais transparente, trocando a distração escondida por combinados claros, o que tende a ser bom para os dois lados dessa equação.
Referências
- InfoMoney, citando pesquisa da UKG sobre perda de produtividade global durante a Copa do Mundo de 2026.
- Exame e Seu Dinheiro, citando pesquisa Infojobs/Redarbor sobre flexibilidade no trabalho durante a Copa do Mundo de 2026.
- IMMA, com dados complementares da pesquisa UKG sobre pertencimento e ambiente de trabalho durante grandes eventos esportivos.