O Dia dos Pais de 2026 cai em 9 de agosto, e o Brasil deve movimentar bilhões de reais só com presentes e comemorações. Em Belo Horizonte, por exemplo, o ticket médio já projetado é de R$ 262,20, alta de 15,6% em relação ao ano anterior. Contudo, uma pergunta incômoda fica no ar: quanto desse valor realmente vira algo que o pai queria, e quanto vira gaveta esquecida meses depois?
Esse fenômeno tem explicação na economia comportamental, e ajuda a entender por que o presente de Dia dos Pais costuma errar tanto o alvo, mesmo vindo de boa intenção.
A economia por trás do presente que ninguém queria
Em 1993, o economista Joel Waldfogel publicou um estudo que ficou conhecido como “a perda de peso morto do Natal”. Basicamente, ele mostrou que presentes físicos costumam valer menos para quem recebe do que o valor efetivamente pago por quem compra, criando uma perda real de valor econômico no processo.
Ou seja, se alguém gasta R$ 200 em uma camisa que o pai nunca vai vestir, esse valor desaparece, na prática, sem gerar a mesma satisfação que R$ 200 gastos por ele mesmo em algo que realmente quisesse. Portanto, o problema não é a falta de carinho, é a falta de informação precisa sobre a preferência real de quem recebe.
Por que a pressa piora ainda mais essa escolha
Segundo pesquisa da CDL de Belo Horizonte, 27,9% dos consumidores compram o presente de Dia dos Pais de última hora por falta de tempo, e outros 27,9% admitem que essa já é uma questão de hábito. Assim, mais da metade das compras da data acontece sob pressão de tempo, justamente o cenário menos favorável para escolhas bem pensadas.
Consequentemente, a pressa empurra o consumidor para opções “seguras”, como perfume, carteira ou meia, itens que raramente desagradam, mas também raramente encantam. Dessa forma, a lógica de menor risco social acaba pesando mais do que a real utilidade do presente.
A obrigação social por trás da compra
Vale reconhecer que boa parte da motivação nessa data não vem de uma necessidade específica do pai, vem de uma expectativa social de demonstrar afeto através de um objeto físico. Assim como discutimos no artigo sobre contabilidade mental, o dinheiro destinado a presentes costuma ser tratado como uma categoria separada, com regras próprias de gasto, mesmo vindo do mesmo orçamento familiar do resto do mês.
Por isso, comprar “qualquer coisa” no dia se torna mais aceitável socialmente do que simplesmente não presentear, mesmo quando a pessoa sabe, no fundo, que aquele item específico provavelmente não será usado.
A virada para experiências, e por que ela funciona melhor
Felizmente, existe uma mudança de comportamento relevante acontecendo. Pesquisas recentes mostram que refeições em família, passeios e momentos compartilhados vêm ganhando espaço ao lado dos presentes físicos tradicionais. Veja a análise completa sobre as novas tendências de consumo no Dia dos Pais 2026.
Do ponto de vista comportamental, essa mudança faz bastante sentido. Afinal, experiências compartilhadas reduzem drasticamente a incerteza sobre o valor percebido pelo presenteado, já que o próprio ato de estar junto já entrega parte do benefício, independentemente de acertar ou não uma preferência específica de produto.

Como escolher um presente de Dia dos Pais com mais acerto
Alguns hábitos ajudam a reduzir a chance de errar na escolha:
- Pergunte diretamente, sem medo de “estragar a surpresa”. A satisfação real de quem recebe importa mais do que o elemento surpresa da compra.
- Considere presentes de experiência, como um almoço, um passeio ou um ingresso para algo que ele goste, em vez de mais um objeto físico.
- Evite deixar a compra para a última hora. Decisões sob pressão de tempo tendem a recorrer a opções genéricas, exatamente o padrão que gera presentes esquecidos.
- Vale de presente não é falta de carinho, é eficiência. Permitir que o próprio pai escolha reduz a perda de valor que costuma acontecer em presentes decididos sem informação suficiente.
O que isso significa na prática
O presente de Dia dos Pais carrega, na maioria das vezes, uma intenção genuína de afeto. Contudo, a forma como essa intenção se transforma em compra, muitas vezes apressada e guiada por obrigação social, explica por que tantos itens acabam esquecidos meses depois.
Assim, entender esse mecanismo não torna a data menos especial, apenas ajuda a transformar boa intenção em escolha que realmente será aproveitada, o que tende a valer mais do que qualquer embalagem bem decorada.
Referências
- Waldfogel, J. (1993). The Deadweight Loss of Christmas. American Economic Review.
- CDL Belo Horizonte. Pesquisa sobre intenção de consumo para o Dia dos Pais 2026.
- Amper, citando dados da Globo Gente e Ipsos sobre tendências de consumo no Dia dos Pais 2026.