As férias de julho terminam na primeira semana de agosto na maioria dos estados brasileiros. Consequentemente, o período entre meados de julho e o início de agosto se torna uma das janelas de compra mais previsíveis do varejo nacional, a chamada volta às aulas de meio de ano. Diferente da temporada de janeiro, esse pico é menor em volume, mas revela padrões de comportamento igualmente interessantes.
Afinal, os pais não esperam o primeiro dia de aula para comprar. Eles compram durante as próprias férias, justamente enquanto ainda têm tempo disponível para pesquisar preços e comparar opções com calma.
O papel da criança na decisão de compra
Aqui está um dos pontos mais estudados do comportamento de consumo nessa temporada. Segundo especialistas do setor, a geração Alpha, nascida a partir de 2010, já exerce influência direta sobre boa parte das decisões de compra dentro de casa. Ou seja, a criança não é apenas o público final do produto, ela participa ativamente da escolha.
Esse fenômeno tem nome na psicologia do consumo: “pester power”, a capacidade que crianças têm de insistir repetidamente até conseguir influenciar a decisão dos pais. Assim, mochilas, estojos e cadernos com personagens licenciados costumam vender mais do que a versão equivalente sem marca, mesmo com preço mais alto e função idêntica.
A inflação que pesa mais do que a média nacional
Vale destacar um dado importante para quem já leu o artigo sobre inflação percebida. Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, o preço do material escolar acumulou alta de 29,5%, mais que o dobro da inflação medida pelo IPCA no mesmo período, de 14,3%. Veja a análise completa do estudo do Ibevar sobre o mercado de material escolar.
Ou seja, assim como discutimos naquele artigo, a compra de material escolar é justamente o tipo de gasto concentrado e frequente que reforça a sensação de que “tudo está mais caro”, muito além do que o índice oficial sugere. Consequentemente, famílias sentem esse aperto de forma bem mais intensa do que a média nacional indica.

Quando o item não pode ser cortado do orçamento
Nem todo item de material escolar reage da mesma forma à pressão econômica. O uniforme, por exemplo, cresceu 27,9% em vendas mesmo em um cenário de retração geral do setor. Isso acontece porque, sendo item obrigatório em muitas instituições, ele reduz drasticamente a margem de ajuste da família diante da alta de preços.
Por outro lado, produtos de maior desembolso, como mochilas, livros e móveis de estudo, registraram quedas expressivas. Dessa forma, o padrão de consumo na volta às aulas de 2026 mostra famílias substituindo, reaproveitando e adiando compras não essenciais, sem reduzir, porém, os itens realmente obrigatórios.
O truque do kit, e por que ele funciona
Vale reconhecer um mecanismo que já discutimos no artigo sobre efeito de enquadramento. Lojas costumam agrupar itens escolares em kits, como estojo, divisórias e bloco de notas, o que eleva o ticket médio da compra.
Assim, quem compra um kit completo tende a comparar menos o preço unitário de cada item isolado. Consequentemente, essa estratégia de agrupamento reduz o esforço de comparação do consumidor, ao mesmo tempo em que aumenta o valor total gasto por família.
Como comprar com mais consciência nessa temporada
Diante desse cenário, algumas práticas ajudam a equilibrar orçamento e necessidade real:
- Faça uma lista antes de sair de casa, e mantenha-se fiel a ela. Definir com antecedência reduz a chance de compras por impulso no momento da loja.
- Evite levar a criança durante a compra, especialmente em itens de maior valor. A exposição direta a produtos licenciados tende a intensificar o “pester power” no ponto de venda.
- Reaproveite materiais do ano anterior sempre que possível. Mochilas, estojos e réguas em bom estado não precisam ser substituídos só por estarem “fora de moda”.
- Compare o preço unitário dentro dos kits, não apenas o valor total do pacote. Às vezes, montar o kit à parte sai mais barato do que a versão pronta.
- Aproveite o fato de comprar fora do pico de janeiro. Preços tendem a ser mais competitivos fora da temporada de maior procura nacional.
O que isso significa na prática
A volta às aulas de julho é bem mais do que reposição de canetas e cadernos. Ela reúne pressão inflacionária real, influência infantil na decisão de compra e estratégias de precificação bem desenhadas pelo varejo.
Assim, entender esses mecanismos ajuda as famílias a planejar a temporada com mais controle financeiro, sem abrir mão do que realmente é necessário para o retorno às aulas dos filhos.
Referências
- Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo), em parceria com a FIA Business School. Estudo sobre o mercado de material escolar em 2026.
- E-Commerce Brasil. Cobertura sobre inflação e retração nas vendas de material escolar em 2026.
- Mundo do Marketing. Sobre o comportamento de compra na volta às aulas de julho de 2026.