Só na primeira semana de lançamento, a Americanas vendeu 4 milhões de figurinhas do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2026. Além disso, segundo a XP Investimentos, clientes que compram figurinhas trazem 34% de novos consumidores para a loja, com ticket médio 7% maior e carrinho de compras 56% mais cheio do que o cliente comum. Portanto, o álbum não vende só figurinha, ele vende praticamente tudo ao redor dela.
Por trás desse sucesso comercial, existe um mecanismo matemático e psicológico bem mais sofisticado do que parece à primeira vista.
A conta que ninguém faz antes de começar
O álbum da Copa 2026 tem 980 figurinhas, a edição mais extensa já lançada pela Panini para um Mundial. Em teoria, bastaria comprar 140 envelopes, de sete figurinhas cada, a R$ 7 o envelope, para completar a coleção. Ou seja, um investimento de R$ 980, calculado no cenário perfeito, sem nenhuma repetição.
Contudo, esse cenário perfeito não existe na prática. Segundo estimativa do pesquisador Milton Jara, do IMPA, especializado em matemática, completar um álbum de 980 figurinhas exige, em média, entre 6 mil e 8 mil unidades compradas, considerando as repetições inevitáveis. Veja a estimativa completa do pesquisador do IMPA sobre o custo real do álbum. Na prática, isso empurra o custo real para mais de R$ 7 mil, sete vezes mais do que a conta ingênua sugere.
O nome técnico por trás desse fenômeno
Esse padrão matemático tem nome: problema do colecionador de cupons. Basicamente, ele explica por que, à medida que você se aproxima do fim de uma coleção aleatória, cada figurinha nova fica proporcionalmente mais difícil de conseguir, já que a maioria dos envelopes traz repetidas.
Assim, os primeiros 80% do álbum costumam encher rápido e parecer baratos. Já os últimos 20%, especialmente as figurinhas raras, exigem uma quantidade desproporcional de compras adicionais. Veja também o levantamento da CNN sobre o custo de completar o álbum em 2026.
Por que continuamos comprando mesmo sabendo da matemática
Aqui entra o efeito psicológico que já discutimos no artigo sobre o efeito do gradiente da meta no frete grátis. Quanto mais perto você está de completar uma meta, mais motivado fica para terminar, mesmo que o esforço marginal necessário cresça exponencialmente.
Dessa forma, um álbum com 950 das 980 figurinhas preenchidas parece “quase pronto”, ativando um impulso forte de finalizar a coleção. Na realidade, essas últimas figurinhas costumam ser justamente as mais raras e caras de conseguir, mas a sensação de proximidade da meta ofusca esse cálculo racional.
Além disso, existe um componente de custo afundado envolvido. Depois de investir centenas de reais em envelopes, parar de comprar parece “desperdiçar” o que já foi gasto, mesmo que, financeiramente, o dinheiro já gasto não deveria influenciar a decisão sobre continuar ou não.
Por que o álbum de figurinhas é tão valioso para o varejo
Do ponto de vista comercial, o álbum de figurinhas funciona como uma porta de entrada extremamente eficiente. Afinal, o cliente vai à loja atrás de um envelope de R$ 7, mas sai, com frequência, com uma cesta de compras bem maior do que planejava originalmente.
Esse padrão explica os números divulgados pela Americanas: mais clientes novos, tickets maiores e cestas mais cheias. Ou seja, o álbum não é o produto principal da estratégia, é a isca que leva o consumidor até a loja repetidamente ao longo de toda a Copa.

O componente social que reforça esse consumo
Vale destacar ainda um fator que amplia esse fenômeno: figurinhas são feitas para trocar, não só para comprar. Assim, o hábito de trocar repetidas com colegas, familiares ou desconhecidos cria uma dimensão social que reforça o engajamento com a coleção, quase como discutimos no artigo sobre consumo em grandes eventos.
Consequentemente, o álbum deixa de ser apenas um produto individual e passa a funcionar como uma atividade coletiva, o que aumenta ainda mais o engajamento ao longo de toda a competição.
Como colecionar com mais consciência financeira
Para quem decide entrar nessa disputa, alguns hábitos ajudam a manter o controle:
- Defina um orçamento máximo antes de começar. Trate esse valor como definitivo, mesmo que o álbum fique incompleto ao final.
- Priorize trocas em vez de compras adicionais. Grupos de troca, físicos ou online, reduzem bastante o custo final da coleção.
- Lembre-se da matemática por trás do álbum de figurinhas. As últimas figurinhas custam desproporcionalmente mais caro, então completar 100% da coleção pode não valer o investimento financeiro.
- Envolva crianças na conversa sobre limite de gastos. Já que o público infantil é bastante impactado por esse tipo de coleção, explicar o orçamento disponível ajuda a criar hábitos financeiros mais saudáveis desde cedo.
O que isso significa na prática
O sucesso do álbum de figurinhas não é acidente nem sorte. Ele combina uma armadilha matemática real, batizada de problema do colecionador de cupons, com gatilhos psicológicos bem conhecidos, como o efeito do gradiente da meta e o custo afundado.
Assim, entender esses dois mecanismos ajuda tanto o consumidor a colecionar de forma mais consciente quanto o varejo a compreender por que esse tipo de estratégia continua funcionando, edição após edição, mesmo décadas depois da primeira Copa com álbum de figurinhas.
Referências
- CNN Brasil. Levantamento sobre o custo de completar o álbum de figurinhas da Copa do Mundo 2026.
- IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Estimativa sobre a quantidade média de figurinhas necessárias para completar o álbum.
- SpaceMoney. Cobertura sobre o impacto do álbum de figurinhas nas vendas do varejo.