Com o Brasil fora da Copa do Mundo desde as oitavas de final, uma pergunta natural surge para quem acompanha comportamento do consumidor: o consumo sem o Brasil simplesmente despenca, ou apenas muda de direção? Os dados divulgados logo após a eliminação, no dia 5 de julho, respondem essa pergunta de forma surpreendente.

Segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado, o varejo total caiu 1,7% no domingo da eliminação, na comparação com o mesmo domingo de 2025. Contudo, esse número geral esconde uma realidade bem mais interessante por trás dele.

O que os números realmente mostram sobre o consumo sem o Brasil

Embora o varejo total tenha recuado, alguns setores específicos cresceram, e muito, no mesmo dia. Os bares, por exemplo, avançaram 13,8% em relação ao ano anterior, com alta de 13,9% no canal físico. Ou seja, mesmo com a eliminação, boa parte dos brasileiros manteve o plano de sair de casa para assistir ao restante da partida.

Além disso, os supermercados cresceram 9,1%, e o varejo alimentício especializado teve alta ainda maior, de 16%. Portanto, o consumo sem o Brasil não desapareceu. Ele apenas migrou de padrão, concentrando-se antes e depois do jogo, em vez de se espalhar ao longo de toda a Copa.

O horário do consumo conta uma história à parte

Um detalhe chama ainda mais atenção nos dados. Antes da partida, o pico de compras em supermercados aconteceu às 11h, quando concentrou 8,01% de todo o volume de vendas do dia. Ou seja, o brasileiro se preparou para assistir ao jogo em casa, mesmo sabendo do risco de eliminação.

Depois da derrota, porém, o comportamento mudou de lugar. Às 19h, os bares concentraram 8,27% do volume diário de vendas, um salto enorme comparado aos 1,80% do mesmo horário em 2025. Veja a análise completa dos dados do ICVA sobre o dia da eliminação. Assim, mesmo frustrados com o resultado, muitos torcedores decidiram continuar a noite fora de casa.

Por que o consumo migra, em vez de simplesmente parar

Esse padrão faz sentido quando olhamos pela lente do comportamento social que já discutimos no artigo sobre consumo em grandes eventos. Afinal, 97% dos brasileiros pretendiam assistir aos jogos acompanhados, o que transforma a Copa em uma experiência coletiva, não apenas em uma disputa esportiva.

Consequentemente, mesmo sem o time do coração em campo, o encontro social já estava marcado, e cancelar de última hora exige mais esforço do que simplesmente seguir o plano original. Esse é um exemplo prático de como o hábito social costuma pesar mais do que a motivação original que o criou.

O impacto real no varejo, segundo especialistas

De acordo com análises do setor, a expectativa era de um avanço de até 8% em bares e restaurantes ao longo da Copa. Com a eliminação precoce, essa alta projetada caiu pela metade, para cerca de 4%. Ainda assim, isso não representa prejuízo direto, mas sim a frustração de um ganho extra que estava sendo projetado.

Segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e o SPC Brasil, 60% dos consumidores pretendiam comprar produtos ou contratar serviços durante o período da Copa, com ticket médio previsto de R$ 619. Muitos itens ligados diretamente à Seleção, como camisetas e decoração, agora perdem força. Contudo, o interesse geral pelo torneio segue relevante para as fases finais.

O que o varejo está fazendo para se adaptar

Bares e restaurantes já ajustaram a estratégia para a reta final da Copa. Muitos trocaram decorações e passaram a oferecer promoções ligadas às seleções que seguem na disputa, como ofertas de vinho em jogos da Argentina e cardápios temáticos para outras equipes.

Dessa forma, o consumo sem o Brasil se apoia agora no interesse geral pelo futebol, e não mais na torcida nacional. As semifinais, marcadas para 14 e 15 de julho, e a final, no dia 19, ainda devem movimentar bares e supermercados, mesmo sem a presença brasileira na disputa.

Como observar seu próprio comportamento nessa reta final

Vale a pena refletir sobre alguns pontos antes de decidir participar (ou não) dos próximos jogos:

  • Separe o interesse genuíno pelo futebol da lealdade automática ao hábito social já criado. Nenhuma das duas motivações é errada, mas vale saber qual pesa mais na sua decisão.
  • Reavalie compras planejadas antes da eliminação. Itens temáticos da Seleção podem ter perdido a urgência original, mesmo que ainda estejam à venda.
  • Aproveite promoções da reta final com atenção ao orçamento. Assim como discutimos no artigo sobre o efeito das grandes eventos no orçamento, a emoção do momento não deveria ditar sozinha o tamanho do gasto.

O que isso significa na prática

Em resumo, o consumo sem o Brasil não simplesmente parou depois da eliminação. Ele se redistribuiu, concentrando-se em horários e categorias específicas, enquanto perdia força em outras, como produtos temáticos da Seleção.

Assim, entender essa migração de comportamento ajuda tanto o consumidor a planejar melhor os próximos jogos quanto o varejo a ajustar estoque e estratégia para as fases decisivas. Afinal, a Copa segue até o dia 19 de julho, e o consumo, de um jeito ou de outro, também segue junto.

Referências

  • Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), divulgado pela Central do Varejo, sobre o desempenho do comércio no dia da eliminação do Brasil (5 de julho de 2026).
  • CNDL e SPC Brasil, em parceria com a Offerwise Pesquisas. Pesquisa “Intenção de compras para Copa do Mundo 2026”.
  • Análises setoriais sobre o impacto da eliminação do Brasil no varejo, bares e restaurantes.