Em 2025, o Brasil importou mais canetas emagrecedoras do que smartphones, salmão e azeite de oliva juntos. O dado, do Ministério do Desenvolvimento, mostra a velocidade de um fenômeno que já deixou de ser só um assunto de saúde.

O uso desses medicamentos saltou 88% no país em um único ano, segundo o Conselho Federal de Farmácia. E, junto com esse crescimento, o carrinho de compras do brasileiro começou a mudar de forma mensurável.

O que muda no corpo, e por que isso importa para o consumo

Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro imitam a ação do GLP-1, um hormônio natural ligado à saciedade. Na prática, eles reduzem o apetite e diminuem a vontade de comer por impulso, não só a fome física.

Esse é o ponto central para quem estuda comportamento do consumidor. Boa parte dos gatilhos de compra que já exploramos aqui, como cores que estimulam o apetite, checkouts cheios de doces e embalagens chamativas, dependem justamente desse impulso. Quando o impulso diminui, o gatilho perde força.

Os números do “efeito Ozempic” no varejo brasileiro

Uma pesquisa da Scanntech, apresentada na APAS Show 2026, mediu esse efeito com dados de mais de 15 bilhões de tickets do varejo alimentar. Entre consumidores que usam canetas emagrecedoras, 61% relataram redução significativa do apetite e 49% passaram a fazer escolhas mais saudáveis.

Além disso, 47% aumentaram o consumo de proteínas e 85% reduziram o interesse por alimentos gordurosos e doces. Os números por categoria confirmam a tendência: açúcar caiu 21,2% em volume, chocolates recuaram 15,7% e biscoitos tiveram queda de 19,3%, no comparativo entre o primeiro trimestre de 2026 e o mesmo período de 2022.

Na direção oposta, verduras cresceram 41%, legumes avançaram 28% e frutas aumentaram 18%. A creatina, item ligado à performance física, registrou alta de 672% no mesmo período. Veja a pesquisa completa da Scanntech.

O efeito também aparece fora do Brasil

Esse padrão não é exclusividade brasileira. Um estudo da Worldpanel by Numerator, feito na Espanha, mostrou que lares que usam medicamentos GLP-1 compram, em média, 3,8% menos alimentos e bebidas em volume, e gastam 3,1% menos em valor.

Porém, a queda não é uniforme. Ela se concentra justamente nas categorias de indulgência, como doces, snacks e bebidas de consumo por impulso, exatamente o tipo de compra mais influenciada por gatilhos visuais e emocionais.

Como o varejo já está reagindo

Grandes redes brasileiras não esperaram o movimento crescer para agir. O Assaí já estuda criar um espaço dedicado a produtos saudáveis dentro das lojas, segundo declaração do presidente da rede ao Estadão.

Da mesma forma, redes como a GNC criaram seções completas de suporte a quem usa medicamentos GLP-1, com foco em shakes proteicos e suplementos. Já o Rei do Mate revisou parte do cardápio para incluir opções menos calóricas, no que consultores vêm chamando de “economia do Ozempic”.

Vale notar, porém, que o impacto ainda é inicial. Levantamentos da Scanntech indicam que o uso das canetas ainda não mudou o volume total de vendas de alimentos no Brasil. Por enquanto, a mudança está mais no perfil da compra do que na quantidade geral consumida.

O impacto no orçamento vai além da comida

Existe um outro lado dessa equação que merece atenção: o orçamento doméstico. Assim como discutimos no artigo sobre consumo em grandes eventos, toda mudança de hábito redistribui gastos, e não necessariamente reduz o total.

Ou seja: a família pode gastar menos em snacks e delivery, mas passa a alocar uma parcela relevante do orçamento no próprio medicamento, que ainda tem custo elevado no Brasil. A expectativa de queda de preço, com o fim da patente da semaglutida, deve ampliar ainda mais esse movimento nos próximos anos.

O que isso significa para quem consome

Vale observar alguns pontos ao lidar com essa mudança de padrão:

  • Reveja o orçamento como um todo, não só a categoria alimentar. Uma redução em snacks pode ser compensada por um novo gasto fixo com o medicamento.
  • Aproveite a redução do impulso para revisar hábitos financeiros também. Menos “fome” por compras por impulso alimentares costuma vir acompanhada de mais clareza em outras decisões de consumo.
  • Desconfie de promessas de emagrecimento fora de orientação médica. O tema já movimenta um mercado grande o suficiente para atrair produtos sem comprovação. Vale lembrar que o texto acima trata apenas do impacto no consumo, não é orientação de saúde.

O que isso significa para o varejo e a indústria

Para quem vende, o momento pede atenção a dois movimentos simultâneos:

  • Categorias de indulgência por impulso tendem a perder espaço, enquanto proteínas, frescos e porções menores ganham relevância.
  • A leitura de dados em tempo real vira vantagem competitiva. Redes que ajustam sortimento e estoque rápido evitam tanto a falta de produtos em alta quanto o excesso de itens em queda.
  • Repensar embalagens e porções pode ser mais eficaz do que insistir nos gatilhos tradicionais de compra por impulso, que perdem força junto com o apetite do consumidor.

O que isso significa na prática

As canetas emagrecedoras deixaram de ser só uma pauta de saúde. Elas já mexem com estoque, sortimento e estratégia de marketing no varejo brasileiro, e o processo está apenas começando.

Por isso, entender esse movimento ajuda tanto o consumidor a organizar o orçamento de forma mais ampla quanto o varejo a se antecipar, em vez de reagir depois que a mudança já apareceu na gôndola.

No fim, o gatilho mais poderoso do consumo sempre foi o apetite. E agora ele está, literalmente, sendo reprogramado por uma injeção semanal.

Referências

  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC): dados de importação de medicamentos em 2025.
  • Conselho Federal de Farmácia: crescimento do uso de medicamentos GLP-1 no Brasil.
  • Scanntech e APAS: pesquisa “Tendências do Varejo 2026”, apresentada na APAS Show 2026.
  • Worldpanel by Numerator: estudo sobre consumo de alimentos e bebidas em lares que usam medicamentos GLP-1 (Espanha).

Nota editorial: A quebra de patente da semaglutida prevista para 2026 pode alterar preços e adoção rapidamente